Lendas do DanúbioA História dos Barcos a Vapor Kisfaludy e Hableány

Na era das reformas da década de 1840, o desenvolvimento do transporte moderno tornou-se uma prioridade nacional na Hungria. A navegação recebeu tanta ênfase quanto o emergente sistema ferroviário. Foi nessa época que os navios a vapor surgiram, revolucionando as viagens aquáticas pelo país. Duas embarcações icônicas simbolizaram essa nova era: os navios a vapor com rodas de pás Kisfaludy e Hableány. Um inaugurou a era de ouro da navegação à vela no Lago Balaton, enquanto o outro navegou até Paris, demonstrando ao mundo a excelência da engenharia húngara. Esses navios não eram apenas maravilhas de sua época, mas também poderosos símbolos de progresso e orgulho nacional.

A História do Kisfaludy Barco a Vapor de Rodas

No início do século XIX, apenas veleiros e barcos a remo navegavam pelas águas do Lago Balaton. Viajar pelo lago era uma tarefa lenta e incerta — as pessoas se deslocavam em carroças por estradas precárias ou dependiam de longos desvios em balsas para ir de uma aldeia a outra. Tudo isso mudou com uma iniciativa inovadora liderada por István Széchenyi, que reconheceu o potencial inexplorado da navegação a vapor no lago. Em 1846, juntamente com o nobre do condado de Zala, Károly Hertelendy, ele fundou a Companhia de Navegação a Vapor do Balaton.

O primeiro navio recebeu o nome de uma das grandes figuras literárias da era das reformas húngaras, o poeta Sándor Kisfaludy, que capturou lindamente a atmosfera do lago em seu poema "Um Balaton". A construção começou no estaleiro de Óbuda, onde o casco de madeira foi construído e, em seguida, transportado para as margens do Lago Balaton em carroças puxadas por cavalos. O motor a vapor de 40 cavalos de potência foi adquirido na Inglaterra, com suas peças enviadas por via marítima para a Hungria. A montagem final do navio ocorreu em Balatonfüred.

Kisfaludy em frente a Balatonfüred, pintura de Károly Lajos Libay

Em 21 de setembro de 1846 — aniversário de 55 anos de István Széchenyi — o navio Kisfaludy foi lançado ao mar pela primeira vez. Durante sua viagem inaugural de Balatonfüred a Kenese, que durou cerca de uma hora, recebeu uma acolhida tão entusiástica que até mesmo a polícia secreta da corte vienense notou o ocorrido. Em seus relatórios, a celebração pacífica foi retratada como uma suspeita manifestação política.

Na época, o Kisfaludy era mais do que apenas uma inovação técnica — tornou-se um salão social flutuante. Seu interior foi idealizado pela esposa de Széchenyi, a Condessa Crescence Seilern, e apresentava painéis brancos e dourados, colunas de mogno e grandes espelhos que conferiam ao espaço uma atmosfera elegante e refinada. O espaçoso convés oferecia uma área de jantar, uma pequena biblioteca, assentos almofadados e até cabines aquecidas para os dias mais frios. Ocasionalmente, música ao vivo animava os hóspedes a bordo.

Kisfaludy parte em sua primeira viagem ao Lago Balaton, álbum Balaton de Miklós Szerelmey, ilustração

Projetado para transportar mais de 200 passageiros, o barco a vapor rapidamente se tornou uma atração popular entre os viajantes mais ricos. Na primavera de 1847, começou a operar como um serviço regular de passageiros. Embora funcionasse principalmente durante a temporada de verão, impulsionou significativamente o turismo na região do Lago Balaton — e, com o tempo, até mesmo a crescente classe média pôde desfrutar do prazer de um cruzeiro no lago a bordo de seu convés.

Poucos anos após o seu lançamento, o Kisfaludy assumiu um papel militar inesperado. Em meados do século XIX, não existia ferrovia ao longo da margem sul do Lago Balaton, o que fazia do navio a vapor o meio de transporte mais rápido da região. Durante a Guerra da Independência da Hungria, em 1848-49, não eram apenas turistas que embarcavam na embarcação — ela também transportava soldados feridos, despachos militares, ordens e até armas. As autoridades austríacas rapidamente perceberam a importância estratégica do navio e emitiram uma ordem para a sua destruição.

O navio Kisfaludy, reconstruído com casco de ferro em 1869, está se retirando do porto de Balatonfüred.

Graças à engenhosidade do capitão do navio na época, Pál Bíró, esses esforços foram frustrados. Durante o dia, o Kisfaludy ficava escondido em baías cobertas de juncos ao longo da costa, com a caldeira desligada para evitar a produção de fumaça. Só era permitido navegar à noite. Os moradores locais desempenharam um papel fundamental em ajudar a tripulação: eles os avisavam sempre que patrulhas austríacas se aproximavam.

A perseguição durou meses, mas os austríacos nunca conseguiram apreender o navio a vapor. Após a derrota na guerra, as autoridades dos Habsburgos confiscaram a embarcação e a colocaram sob vigilância militar — mas, em 1850, foi permitido que ela retomasse o serviço regular de passageiros.

O Kisfaludy continuou a servir por mais quatro décadas no Lago Balaton. Com o tempo, porém, tornou-se cada vez mais desgastado e, com a expansão da ferrovia e o surgimento de navios mais novos e modernos, gradualmente perdeu seu papel central. Em 1887, o vapor fez sua última viagem antes de ser desativado e desmontado.

Agenda de Kisfaludy

Conde István Széchenyi (1791 – 1860)

O Conde István Széchenyi, conhecido como "o Maior Húngaro", foi o estadista visionário da Era das Reformas do século XIX que lançou as bases de uma nação moderna. Ele fomentou o progresso intelectual e social ao fundar a Academia Húngara de Ciências e estabelecer o Cassino Nacional como um fórum fundamental para o diálogo progressista. Suas realizações práticas foram igualmente transformadoras: ele iniciou a construção da icônica Ponte das Correntes, a primeira ponte permanente da Hungria sobre o Danúbio, e foi pioneiro no transporte movido a vapor ao fundar o Estaleiro Óbuda e lançar o primeiro navio a vapor no Lago Balaton. Esses projetos, juntamente com sua incansável promoção de ferrovias e indústrias modernas, como a produção de açúcar, foram cruciais para o avanço da economia e da sociedade do país.

A História do Hableány Barco a Vapor de Rodas

Duas décadas após o sucesso do Kisfaludy no Lago Balaton, em 1867, o filho de István Széchenyi, Ödön Széchenyi — ele próprio um entusiasta da navegação — decidiu realizar algo verdadeiramente ambicioso: planejou navegar de Pest a Paris pelo Danúbio e pelas vias navegáveis interiores da Europa para participar da Exposição Universal. Como ninguém jamais havia completado tal jornada pelos rios e canais europeus, o projeto atraiu grande atenção. O objetivo de Ödön era provar as capacidades da navegação a vapor húngara e exibir as conquistas da construção naval húngara em um palco internacional.

Gravura em placa de cobre do "Hableány" para a edição de 2 de novembro de 1867 de "Magyarország és a Nagyvilág" (Hungria e o Mundo)

Para concretizar esse plano audacioso, ele precisava de uma embarcação que fosse ao mesmo tempo resistente e compacta o suficiente para navegar com facilidade pelos canais mais estreitos e águas mais rasas. Em 1866, com base nos projetos de Adolf Hörcher, o Hableány (“Sereia”) foi construído para atender exatamente a esses requisitos. O vapor media apenas 20 metros de comprimento, 3,66 metros de largura e tinha um calado de apenas 46 centímetros — perfeitamente adequado para uma rota tão exigente.

O navio Hableány partiu de Pest em 6 de abril de 1867, com o próprio Ödön Széchenyi ao leme. A tripulação era composta por apenas cinco pessoas: Széchenyi como capitão, um timoneiro, um engenheiro, um foguista e um cozinheiro. A viagem percorreu mais de 2.000 quilômetros e levou 43 dias para ser concluída. Navegaram pelo Danúbio, cruzaram o Canal Ludwig e seguiram pelo sistema fluvial Meno-Reno até Estrasburgo. De lá, navegaram pelos canais interiores da França até alcançar o rio Marne e, finalmente, o Sena, chegando em 18 de maio de 1867.

A viagem do navio Mermaid (em roxo) de Budapeste a Paris. Fonte: kriegsmarine.hu

A ousada expedição de Széchenyi atraiu grande atenção da mídia em toda a Europa. Sua audaciosa empreitada virou manchete, e o próprio navio a vapor tornou-se um dos destaques da Exposição Mundial de Paris — chegando a ganhar uma medalha de ouro na categoria de máquinas. Ao chegar, o Hableány foi recebido por ninguém menos que Júlio Verne, que ficou tão inspirado pela história que ela influenciou seu romance O Piloto do Danúbio. A embarcação também recebeu o Imperador Napoleão III e a Imperatriz Eugênia para um breve cruzeiro fluvial. Em reconhecimento à extraordinária conquista de Széchenyi, o imperador o condecorou com a Legião de Honra francesa, consolidando seu lugar na história da navegação europeia.

Após a exposição, o Hableány não retornou à Hungria. Széchenyi vendeu o navio ao renomado fotógrafo francês Félix Nadar. Assim como o Kisfaludy, o Hableány também foi levado pelas marés da história — durante a Guerra Franco-Prussiana de 1870, foi reaproveitado como navio a vapor militar. Ao final da guerra, os prussianos vitoriosos apreenderam a embarcação como troféu de guerra e a utilizaram para o transporte de passageiros no Reno. Em 1874, sua jornada chegou a um fim trágico quando uma explosão na caldeira causou o naufrágio do navio.

O Hableány em Paris, Fonte: Registro de Navios

Ödön Széchenyi (1839 – 1922)

O Conde Ödön Széchenyi, filho do "Maior Húngaro", foi um homem de ação que traduziu o espírito visionário do pai em realizações tangíveis e práticas. Embora sua ousada viagem a Paris a bordo do navio Hableány seja famosa, seu legado mais duradouro na Hungria é a criação do sistema organizado de proteção contra incêndios do país. Inspirado pelo Corpo de Bombeiros de Londres, ele fundou e comandou os departamentos de bombeiros voluntários e profissionais de Budapeste. Conquistou profundo respeito por liderar pelo exemplo e trabalhar diretamente com seus homens. Sua expertise ganhou reconhecimento internacional, levando-o a modernizar os serviços de bombeiros de Istambul, onde obteve tamanho sucesso que recebeu o distinto título militar de Paxá, uma rara honra para um não muçulmano.

Barcos a vapor com rodas de pás nos dias atuais

As viagens aventureiras do Kisfaludy e do Hableány são reflexos poderosos da inovação húngara do século XIX e do sucesso internacional da navegação a vapor. O Kisfaludy foi o primeiro a introduzir o serviço regular de navios a vapor no Lago Balaton, enquanto o Hableány provou que uma embarcação construída na Hungria podia conquistar a vasta rede de rios e canais da Europa. Ambos os navios a vapor tornaram-se símbolos da engenhosidade da Era das Reformas e do orgulho nacional.

Felizmente, suas histórias não terminaram nos livros de história. No século XXI, ambos os navios foram trazidos de volta à vida — em uma forma modernizada, mas historicamente fiel. O Hableány foi reconstruído em 2007, seguido em 2014 pela reconstrução do Kisfaludy em uma forma historicamente precisa, baseada em fotografias e plantas antigas. Embora sua operação agora atenda aos padrões técnicos modernos, sua aparência captura o espírito e a elegância da Hungria da era das reformas.